segunda-feira, 13 de abril de 2020

MORINI - "Maldita droga!"

Joaquim é um homem cigano. Um homem de olhos tristes que roubou a si próprio a juventude embebida em sumo de limão, preso pelos costumes, pela sua crença e pela “maldita droga”. Foi um homem perseguido e condenado na justiça pelas atrocidades que cometeu, tantas e tão graves que ele próprio se penitenciou durante quase um ano depois de tomar consciência de que não viveria impune. A sua autopunição talvez tenha sido mais severa que os vinte anos da condenação a que foi sujeito por uma dezena e meia de crimes provados e confessados. O cigano nasce assim a cada geração preso desde o berço ao estigma que ninguém assume e parte em desvantagem numa sociedade castradora e cínica, como dizem, orientado para nunca se libertar da condição marginal. Não recebe apoio nem educação, não tem acessos fáceis e por isso, embora diferente em cada evolução social é sempre igual. Trocou a carroça pelo furgão, a barraca pelo casarão, mas conservou a sua genética e uma incompreensível capacidade de resistir à integração comunitária. Tal como os acampamentos de pobres e rejeitados, também os seus foram sendo desmantelados por este país adentro mas algo falha sempre ou finge que sim, porque há sempre espaço para os ghettos sejam de brancos e pretos e ciganos ou por outra motivação qualquer. Mas os pobres por vezes melhoram de mentalidade e de vida, não se percebe porquê eles se auto excluem tão determinantemente. Às vezes dou por mim a pensar como é possível num país tão desenvolvido como os Estados Unidos haver ainda tribalismo com características tão prosaicas e indignas, exactamente como com os ciganos em Portugal, realidade que se pode avaliar melhor. O meu sonho é ver uma geração aceitar a cultura cigana mas puxá-la para junto de si e encaminhar esta minoria à medicina, à arquitetura, à arte, à manufactura qualificada. Foram precisos quase cinco anos para desmantelar a quadrilha de adolescentes e de jovens adultos rudes e maus, de toxicodependentes criminosos cruéis e insensíveis. Oito jovens rudes e brutais para quem o passatempo foi roubar, ferir e matar. A vida prende-se a nós com os horários do trabalho e as outras rotinas; a deles foi-se desprendendo à medida que os nossos horários e as nossas rotinas se transformavam na determinada perseguição que lhes foi movida. Criminosos não podem ter sossego e foi isso que lhes foi imposto – levar o desassossego e roubar-lhes o sentimento de impunidade até caírem, um a um, nas sua próprias consciências e depois na da justiça. Talvez seja melhor começar a sua história, a de Joaquim, cujo nome verdadeiro ainda não sei bem qual é, se António ou se Joaquim, foi como se tivesse nascido com todos os nomes, ser cigano é assim, ser todos os nomes ao seu alcance para que ninguém lhe roube a identidade, como se a alma ela própria tivesse um nome e esse, o verdadeiro, dado pelos pais e guardado na intimidade dos amigos.

domingo, 15 de julho de 2018

O meu Blogue:  Caminhando por "Vallongo", parte I. Uma viagem ...

Um blogue bem concebido. Parabéns.

E porque reporta Valongo em imagens - passado e presente, parabéns mais uma vez, porque descendo de filhos de Valongo - Suzão e Campo (Quinta da Corredoira) onde ainda tenho muita família.

O meu bisavô e os meus avós maternos viveram no Suzão até 1962 na casinha térrea mais próxima da linha, do lado do "campo da bola" como a minha avó Carneiro lhe chamava. A minha avó dizia que no verão os jogadores bebiam água do seu poço, que nunca secava. Essa casa continua nossa, com o poço. E lembro-me de a conhecer ainda com paredes de lousa, bem como os muros do terreno, onde inclusive havia uma saliência para os passantes se sentarem. Aliás, acho que por baixo do reboco a pedra inicial da casa ainda está lá. O telhado era de lages de lousa. Quando o meu pai soube das alterações que o caseiro fizera ficou furioso e só porque a senhora era prima direita da minha mãe os deixou continuar lá a viver. Eu recordo-me, mas nunca vi uma fotografia daquele local antes de ter sido construído o viaduto da auto estrada e gostava de ver/ter. Talvez você possa indicar-me onde possa ver imagens do Suzão antes e depois do viaduto.

Tomé Soares

domingo, 3 de janeiro de 2016

FELIZES OS QUE VÃO PODER VIVER MAIS ESTE ANO

Ano Novo! Todos ou quase, celebramos a entrada em cada ano com a esperança renovada de que agora é que nos vai sair o euromihões, o nosso clube vai ser campeão, os nossos amigos e as outras pessoas que amamos vão durar mais um ano nem que seja só para nos olharmos nos olhos e... Quase todos fazemos votos para que os políticos que governam o mundo melhorem apenas um pouco e se lembrem de nós fora da campanha eleitoral. Nem todos os votos se cumprirão, as mais da vezes nenhum. E a pergunta que faço é, então em vez de desejar celebrar a entrada no Novo Ano porque não ignorá-lo? Simplesmente ir à cozinha rasgar o calendário velho e colocar o novo, assinalar os feriados e as pontes, prever as férias e ver em que dia da semana é o nosso aniversário; beber uma taça de qualquer coisa e dizer uns para os outros - "lá vamos nós outra vez!". Esperança era uma gata que viveu em nossa casa durante dois anos. Apenas dois anos e morreu! Até os optimistas têm consciência da irreversibilidade dos acontecimentos que mais apoquentam as nossas vidas: corrupção na política, baixos salários, injustiças e guerras e o aumento do custo de vida. Não há esperança! Morreu aos dois anos! Se fosse suposto vivermos com alguma esperança dar-nos-iam sempre um pouco mais do que aquilo que nos tiram. Pelo contrário, quem lidera precisa de nos manter deprimidos e de quando em vez agita o quotidiano com truques de magia, iludindo a nossa percepção de que tudo está na mesma com promessas de mudança. Promessas! A esperança baseia-se em meras promessas. Esta é a fórmula. Todo aquele que atinge objectivos, ou teve sorte ou trabalhou para isso e esperança ou promessas não fazem parte do seu vocabulário porque por aí nunca lá chegariam. Por isto a minha mensagem para 2016 é a que segue. Se estão fartos dos maus políticos não votem neles e candidatem-se. Se ganham mal vão à caça e não fiquem sentados a moer. Por cada injustiça constatada recorram e prestem ou peçam solidariedade. E sempre que os preços aumentem comprem menos e vão vê-los baixar. Felizes daqueles que neste Novo Ano ainda estão vivos e com saúde!

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

VAMOS À NEGRA

Ninguém usa mais esta expressão - vamos à negra. Quando se disputa pode ser necessário ir à negra; em caso de empate vai-se à negra. No snooker pode-se jogar à negra, neste caso à preta. Todos temos cor. Todas as coisas têm cor. Vivemos num mundo a cores e em certa forma interpretativa, colorido. É o mundo, o Universo em que vivemos inundado de luz. Mas se a luz se apagasse tudo continuaria com as suas caraterísticas para irradiar a sua cor mal ela se reacendesse. Exceto a vida, porque essa perde de facto algumas caraterísticas com a ausência da luz. As religiões são iguais. É a luz que as faz mais ou menos interpretativas e ou coloridas. Em se apagando a luz todas podem ficar tenebrosas, medonhas, assustadoras, estéreis. Nós somos a luz da religião, é para nós que existe e connosco perdura; em se apagando a nossa luz também definha e se extingue. É como se Deus só pudesse existir, coexistir connosco. Isso só seria verdade perante esta realidade, porque sendo para nós desconhecida a dimensão do Universo, pode Deus muito bem ter tanto com que se ocupar finda esta realidade, que apenas lamentará a nossa ausência, como qualquer um chora a perda de um filho. E se não for assim? E se estivermos predestinados a migrar no Universo, como espécie, transportando as religiões connosco e sempre sob o olhar atento de Deus? Estaremos então e efetivamente a cultivar filosofia por esses Mundos, a desconstruir o saber para aprender, a querer chegar mais próximo da verdade de Deus. Mas continuaremos às cores, a discordar e a disputar, a ir à negra ou a outra qualquer cor que se entenda comummente como sendo a mais definidora de uma situação limite. Desde que se entenda que não tem interpretação ofensiva. Existe alguma lógica andar aos tiros por causa disso? Não era melhor combinar outra cor? outra disputa? Como sou desconfiado, ando de calculadora numa mão e de enciclopédia na outra para desvendar quem mais ganha nestas disputas e porquê. Tal como as cores, nem tudo é o que parece e por Deus não haveria disputas.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

E É POR ISSO...

Quando nasci a mão de Deus pousou sobre mim. E foi por isso que nunca sofri nenhum acidente ou de doença grave até aos dias de hoje. E foi por isso também que quando a minha avó fazia a broa de milho à lavrador, muito parecida com a de Avintes, tinha sempre a preocupação de fazer uma pequenina, suponho que de trigo, branquinha, só para mim. É verdade que íamos juntos ao monte à carqueja para acender o forno e ao aido buscar a bosta para o selar, sempre à conversa, um miúdo de sete anos com uma senhora de setenta. Esta avó acrescentou a sua mão sob a mão de Deus. E foi por isso que a escola correu bem até eu achar que já sabia tudo e aí Deus pôs-se de lado, dizendo: caminha e vê. E foi por isso que fiz a tropa mesmo mesmo depois do 25 de Abril. E foi por isso que fui pai feliz e sou marido ainda. E foi por isso que alguns anos mais tarde O reencontrei e assumi definitivamente como O MEU GUIA. E foi por isso que a minha carreira profissional teve o encaminhamento que teve, por entre o risco e a sorte, com um saldo positivo no final. E foi por isso que fui pai outra vez e continuo marido, num esforço permanente de reencontro com a mulher que escolhi na presença de Deus. E foi por isso que já aqui cheguei, na esperança de ir mais longe. Ao olhar pela janela do tempo consigo contemplar aqueles que como eu foram fadados e muitos outros que, ao contrário, não foram fadados. A mão de Deus pousou sobre todos nós, disso não há dúvida. Mas não pergunto a Deus porquê. Pergunto antes aos homens, porque a mão de Deus não os impede de caminhar e de ver. E é a alguns destes homens, muitos deles fadados, que cumpre assumir a responsabilidade de malfadar o seu semelhante como se isso não pudesse pesar no seu destino. É a eles que devem ser assacadas responsabilidades pelas revoluções e pelas guerras, pelas fomes e pelas luxúrias, pelo gráfico aberrante da estabilidade social ao longo da história, leões que se alimentam de carne congelada. O retrato político da sociedade, portuguesa ou universal, enquadra-se sempre na mesma moldura de ouro e com os mesmos figurantes, seja republicano, monárquico, ditatorial ou democrático. É caso para dizer "SÃO SÃO SEMPRE OS MESMOS" desde tempos imemoriais, como se lhes fosse transmitido por direito divino e inquestionável. E foi por isso que não pude ser e deixei que eles fossem: cínicos. E foi por isso que me esforcei por não mentir para que só eles fossem: mentirosos. E foi por isso que lutei muito contra a maldade para que só eles fossem: maus. E foi por isso que me apelidaram de paladino para que eles fossem reconhecidos como: egoístas. E é por isso que comummente se diz: ele há os fadados e há os... outros. A sorte não é um bem nem uma lotaria, antes porém uma demanda sem termo nem sossego.

sábado, 28 de junho de 2014

OS PARTIDOS

Quando um filho casa o pai procura sempre que ele encontre um bom partido, sempre foi assim. Quando o filho se divorcia muitas vezes o pai desabafa dizendo: quando casou antes lhe tivesse partido os cornos. Partidos, políticos, não há quem lhos parta nem quem os mande para o raio que os parta. Então vamos raciocinar juntos. Neste momento assistimos a uma reacção fraturante entre facções no Partido Socialista. A ponto de as bases poderem decidir o futuro do Partido. Ao decidirem o futuro do partido estão também a decidir o seu. Suponhamos que acontece uma coisa semelhante à abstenção nas Europeias: ficam os mesmos à sopa uns com os outros. Agora vejamos o que aconteceria se "de repentemente" houvesse uma filiação em massa nos Partidos de Esquerda, a saber, Partido Comunista, Partido Comunista e Partido Comunista. Ao aperceberem-se de um crescimento, por dentro, da única oposição de esquerda em Portugal, ai que dor ai que dor de barriga, ou seja, que diferença fazia ser o PS Segurista ou Costista. Sem dúvida que a Direita partia-se aos pedaços e o PS ficava mesmo ao Centro, como gosta, isolado. Sócrates demitiu-se, que acham vocês que acontecia a Seguro? Já de Costa não tenho certezas. Ponto de situação. Quem achar que encontra à Direita a protecção dos seus direitos e dos seus interesses, que saia do PS. Quem achar que só à Esquerda se sente protegido da dureza do Capital, saia do PS. Sobra o quê? E então o que é que acontece? O PC cresce, porque o Bloco já não faz nada. O PSD perde amigos do PS e o CDS perde os enganados e, numa manta de MES e outros mini partidos, ficam aí uns 38% de eleitores divididos ao Centro, com vergonha de se assumirem. Sobra o quê? 20% para o PC, 15% para o PS e é preciso ir ao MPT, ao MES e a outros que tais comprometer mais 15% para governar. Ora aí está! A Direita passa à clandestinidade os partidos que não se revêm nem no 25 de Abril nem na Constituição e resta aquele valor fundamental para iluminar as mentes, de que somos um país com tradições conservadoras, respeitadoras da propriedade privada e do capital ao serviço da sociedade, mais 12%. Ora aí está a fórmula do progresso para Portugal: 20% + 15% + 15% + 12% = estabilidade governativa. E quem manda? O voto dos eleitores e não nenhum partido. Como? Por dentro de cada Partido, os filiados vão dizer não às crostas, vão exigir rotatividade e não lugares cativos e só permanece liderante quem convencer pelos resultados. É isto, uma revolução por dentro dos partidos políticos, tal como sempre deveria ser, por directas. Vamos trabalhar, vamos filiar-nos, estamos a tempo de mudar o painel político, temos mais de um ano. Força rapazes! É vosso o futuro!

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

PRÓXIMAS ELEIÇÕES

Portugueses e Portuguesas O Partido Socialista vai dar o primeiro passo no sentido da maior evolução política desde a implantação da Répública - A Unidade da Esquerda. Os Partidos da Esquerda vão finalmente fazer uma aliança para a próxima Legislatura, com o objectivo de defender a Constituição Portuguesa, o Estado Social, o Socialismo Laboral, o Capital Socialista, a Democracia. O primeiro sinal desta vontade de mudar as políticas e recentrá-las nos interesses da maioria dos Portugueses, é a promessa de que todas as leis que este Governo colocou em vigor serão anuladas logo que tome posse a Aliança Unidade da Esquerda. O segundo sinal que demonstra os objectivos da AUE é o de definir, para além do salário mínimo, da reforma mínima, do tempo mínimo de descontos para aquisição de direitos sociais, o salário máximo, a reforma máxima e o tempo máximo de descontos para os sistemas públicos de protecção social e a definição destes sistemas. O terceiro sinal da AUE é transformar o Estado numa Entidade Empregadora com as mesmas regras estabelecidas nos Códigos do Trabalho, Civil, Comercial, deixando o Estado de ser o responsável pelos actos praticados pelos seus trabalhadores, inclusive no desempenho de cargos políticos. Por último, a AUE determinará que o Governo de Portugal só poderá gerar endividamento público inferior à renda recolhida pelo Ministério das Finanças - única entidade estatal com competência para recolher todas as verbas consieradas pertença do Estado e que esse endividamento oscilará entre quatro quintos e cinco sextos. Todos gostamos de sonhar com condições de vida ideais, mas poucos somos os que lutamos por esses sonhos. Mas como vivemos em democracia e o voto é de cada um de nós e é um dos instrumentos para a realização desses sonhos, das duas uma: ou acordamos e não damos o nosso voto a ninguém, ou perseguimos o nosso sonho e negociamos o voto até ao despertar de uma nova madrugada para a Democracia Portuguesa. Imagine-se o que seria todos os eleitores guardarem o voto até ao último minuto que precede o fecho das urnas... Esta ameaça é suficiente para provocar um enfarte naqueles que se empanturram no quotidiano do desfrute da política para servir apenas os seus interesses. Esqueci-me de um quinto sinal da AUE e este, então, é mesmo crucial: os Partidos Políticos deixam de receber dinheiros públicos, tal e qual como todas as organizações que tenham estatuto privado, clubes desportivos, escolas privadas, associações religisosas, empresas de segurança, estabelecimentos de saúde privada, etc etc. Eu pensava que já estava desperto...