quinta-feira, 25 de julho de 2013

PALAVRA DE HONRA

No final de 1973 celebrei um contrato com o então Banco Português do Atlântico com quatro notas de 1.000$00, do tamanho de mãos honradas, enormes e senti o orgulho de começar por aí a traçar um percurso de dignidade.
Nesse tempo a palavra de honra era uma expressão com sentido muito marcante. Era um compromisso social que impunha atitude e positivismo para sermos respeitados.
Ao longo dos anos e por vicissitudes que nem sempre concordaram com a minha vontade, fui forçado a celebrar contratos com outros bancos, temporários quanto exigiam os compromissos, sem nunca deixar cair aquele primeiro vínculo, o mais importante, o do primeiro contrato.
Passei pela primeira mudança de nome em que desapareceu o Banco Português, até hoje que é Millennium.
Sempre que precisei recorri aos seus serviços e sempre que não puderam assistir-me tive que aceitar compromissos temporários. Aquela que era a minha referência de vida permanecia no íntimo de mim como um diário, na crença de que as linhas que se escreviam no meu extrato eram um referencial de credibilidade na exata medida do meu estatuto económico, no sobe e desce das folgas e dificuldades.
Tive orgulho, como um título, quando acrescentaram nos cheques "cliente há mais de vinte e cinco anos". Mantive a minha fé na sua palavra e vi-os a falharem uma e outra vez, até que percebi que a coluna central daquela instituição já não era mais a mesma que recebera as minhas notas de conto e para quem eu era o que era, um pequeno item financeiro quase sem significado.
Agora atrevem-se a espremer mais umas gotas do meu esforço financeiro de poupança, retirando um por cento dos dois por cento de juros que renderam os meus PPR, com a simplicidade do nome comissão de gestão em vez de, ao contrário, me oferecerem um prémio de fidelidade por os ter mantido sob a sua administração anos a fio e terem ganho, como seria lógico que o fizessem, talvez dez vezes o seu valor.
Pobres de nós, ignorantes, que confiamos os nossos destinos a instituições como o Governo, a Banca e os Seguros, enfim, no final parece que realmente só podemos confiar nas Finanças, a única entidade que se obriga a mostrar transparência e linearidade na sua actividade. A mostrar.
À medida que a idade avança e apesar do tempo disponível começa a faltar disponibilidade mental para se adaptar a estas surpresas, quem se sente a envelhecer começa a prostrar-se sobre os seus próprios lamentos como se fossem os lençóis da morte, numa dor finíssima e penetrante, tão mais profunda quão mais consciente da sua causa.
Adeus mundo cruel da juventude que me matavas de ansiedade, adeus mundo cruel da velhice que me matas de indiferença.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

DESONESTIDADE INTELECTUAL

Pela primeira vez tive a noção de que mesmo as inteligências mais brilhantes nos podem decepcionar ao serem previsíveis.
O Senhor Marcelo Rebelo de Sousa cometeu o pecado de se exibir como parcial ao comentar as últimas comunicações do Presidente da República e por ser tão previsível deixou-me a tristeza de não querer acreditar que pudesse sequer imaginar que o comum dos telespectadores não se desse conta disso.
Qual pilar, qual carapuça, a proposta de eleições antecipadas! Só um tolo se deixaria enganar por um pilar de esferovite pintado a mármore.
Nunca houve acordo a negociar e o PS sabia disso, só não soube disfarçar que o verdadeiro acordo era salvar a face por nada querer fazer para alterar a orientação das políticas do governo. Nada rebuscado, apenas cínico e o Senhor Marcelo foi apenas mais um tempo de antena PSD para branquear toda a trama e incutir em alguns dos cépticos seus seguidores, como eu, de que algo poderia acontecer mas não foi simplesmente possível apesar dos esforços dos negociadores. Brincamos, não?
Nem o Senhor Jerónimo foi corajoso o suficiente para pôr tudo a nú.
Pobres de nós, passarinhos na gaiola, com medo que os tratadores deixem de nos dar alpista.
Os verdadeiros pilares do alegado acordo eram o medo, o medo e o medo: o medo dos partidos do governo poderem perder o poder, o medo do PS cair no ridículo por não fazer oposição, o medo do Presidente por não ter poder. E assim, num golpe palaciano, à moda antiga, tudo ficou na mesma, só que cada um espantou os seus medos.
E o Senhor Marcelo, que até tem poderes para nos fazer sonhar que tudo é possível em democracia, deixou-me na amargura de nunca mais poder ouvi-lo da mesma maneira.
Ele não o lamenta mas eu sim.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

GREVE NA ASSAMBLEIA DA REPÚBLICA

Os deputados da oposição decretaram uma greve sem termo a ter lugar no próximo dia 10 de Junho, como forma de forçar o Presidente da República a dissolver a Assempleia por falta de representatividade democrática.
Os deputados da oposição inicialmente pensaram em demitir-se do cargo e desta forma colocarem a maioria a falar para a SACOR até o Presidente da República se sentir envergonhado e mandá-los calar, mas o problema seria perderem a remuneração definitivamente e interromperem a contagem de tempo para acesso à aposentação e à subvenção.
Por isso e depois de terem esgotado todos os argumentos razoáveis para convencer o Presidente da República a exercer o seu cargo, decidiram começar uma greve de zelo, sentando-se de costas para a bancada do Governo e para a Presidente da Assembleia, juntamente com um voto de silêncio. Como houve quem interpretasse esta greve como sendo ilegal do ponto de vista ético, optaram por se levantarem e saírem da sala para os lavabos sempre que houvesse lugar a uma votação. Também não colheu.
Democraticamente e por unanimidade, então a Oposição, em boa hora, decretou a greve a iniciar-se no Dia de Portugal - dia 10 de Junho - informação para a Maioria, sem data de termo. O Dr. Paulo Portas, enquanto Presidente do CDS-PP, solidarizou-se imediatamente com este acto bélico, por ser heróico e ter como principal objectivo defender a Nacionalidade. A Oposição acredita que outros deputados do CDS sigam o seu líder, como homenagem a todos os idosos que vivem das suas pensões e que votaram neles por convicção de que eram o garante do respeito pela sua velhice.
Um idoso teve mesmo a coragem de arrumar a sua habitação para arranjar espaço para acolher algum dos deputados do CDS que, estando prestes a atingir o limite de idade e ao passar à situação de aposentado não disponha de pensão suficiente para viver sozinho. O T2 ficou modesto em espaço, mas à disposição caso os cortes continuem ou venha mesmo a ser extinta a pensão de reforma.
Vergonha é uma palavra que estará sempre associada à honra: sem esta não há aquela.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

NOTIFICAÇÃO A PAULO PORTAS

Senhor Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros
Excelência

Pelo presente fica Vossa Excelência notificado para ser submetido a exame radiológico em data próxima, com urgência,  no estabelecimento de saúde da sua preferência, com vista a ser avaliada a sua costela patriótica.
As condições de trabalho a que tem sido sujeito permintem presumir que possa haver já um dano ósseo, porventura apenas uma fissura, mas que o Conde Andeiro não deixará de pressionar até a transformar numa fractura, ainda que não exposta, quiçá apenas uma deformação suficiente para conseguir enfiá-lo no buraco de onde pretende que nunca mais saia.
Os portugueses estão dependentes da sua saúde para serem capazes de lançar de novo pela varanda abaixo mais um conde andeiro que, mais do que penhorar o nosso mar, sabe-se lá, rico em petróleo mas em peixe seguramente, pretende vender a nossa alma e, pior ainda, as tábuas do nosso caixão, os lenhos das nossas memórias, oferecendo como destino dos nossos restos mortais uma qualquer vala comum, como tantos e tantos que foram vítimas da última grande guerra da Europa, guerra que foi protagonizada também por um homem pequeno e mesquinho um andeiro.
De uma coisa há certeza: temos mar. Aquele mar a que Vossa Excelência lançou submarinos, talvez para vigiar e intervir caso alguém viesse a pretender roubar as nossas riquezas, submersas por lágrimas e suor de tantos patriotas, tão grandes e valorosos que envergonharam as maiores potências deste Velho Continente. Se a terra não lhes interessa, então será o quê? O vento explorado pelas energias alternativas que podem libertar-nos do petróleo? Não! Podia ser, mas não: é o Mar. Este mar salgado, que banha docemente os nossos pés, que nos dava boa cortiça e figos e laranjas, sem TGV.
Na antevisão do resultado do exame radiológico ser milagrosamente negativo, fica Vossa Excelência obrigado a defender a sua saúde, porque ao fazê-lo estará a assegurar, a proteger o bem estar de uma significativa parte do eleitorado lusitano que depositou no seu futuro a esperança de paz desta democracia que lhe deu ser.
Saiba Vossa Excelência que não está a ser tratado desta forma por outras razões que não sejam a fé e a convicção de que ainda há instituições em Portugal que merecem ser defendidas e dignificadas.
Que a herança dos nossos pais seja ao menos um esqueleto forte, pois será o que sobra da carnificina que o Governo de Portugal está a fazer e, como os ossos só desaparecem se forem cremados, prometa-nos dar a vida para que ninguém reduza a cinzas as nossas memórias.
Por último quero deixar um pensamento para meditação: a última barreira da fome é o nosso pai e a nossa mãe, por regra, a nossa mãe e não deve haver coisa mais desgraçada do que ser órfão, particularmente em tempos como este.
Os meus respeitos de cidadão e de servidor aposentado.