Pela primeira vez tive a noção de que mesmo as inteligências mais brilhantes nos podem decepcionar ao serem previsíveis.
O Senhor Marcelo Rebelo de Sousa cometeu o pecado de se exibir como parcial ao comentar as últimas comunicações do Presidente da República e por ser tão previsível deixou-me a tristeza de não querer acreditar que pudesse sequer imaginar que o comum dos telespectadores não se desse conta disso.
Qual pilar, qual carapuça, a proposta de eleições antecipadas! Só um tolo se deixaria enganar por um pilar de esferovite pintado a mármore.
Nunca houve acordo a negociar e o PS sabia disso, só não soube disfarçar que o verdadeiro acordo era salvar a face por nada querer fazer para alterar a orientação das políticas do governo. Nada rebuscado, apenas cínico e o Senhor Marcelo foi apenas mais um tempo de antena PSD para branquear toda a trama e incutir em alguns dos cépticos seus seguidores, como eu, de que algo poderia acontecer mas não foi simplesmente possível apesar dos esforços dos negociadores. Brincamos, não?
Nem o Senhor Jerónimo foi corajoso o suficiente para pôr tudo a nú.
Pobres de nós, passarinhos na gaiola, com medo que os tratadores deixem de nos dar alpista.
Os verdadeiros pilares do alegado acordo eram o medo, o medo e o medo: o medo dos partidos do governo poderem perder o poder, o medo do PS cair no ridículo por não fazer oposição, o medo do Presidente por não ter poder. E assim, num golpe palaciano, à moda antiga, tudo ficou na mesma, só que cada um espantou os seus medos.
E o Senhor Marcelo, que até tem poderes para nos fazer sonhar que tudo é possível em democracia, deixou-me na amargura de nunca mais poder ouvi-lo da mesma maneira.
Ele não o lamenta mas eu sim.
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