quarta-feira, 23 de julho de 2014
E É POR ISSO...
Quando nasci a mão de Deus pousou sobre mim.
E foi por isso que nunca sofri nenhum acidente ou de doença grave até aos dias de hoje.
E foi por isso também que quando a minha avó fazia a broa de milho à lavrador, muito parecida com a de Avintes, tinha sempre a preocupação de fazer uma pequenina, suponho que de trigo, branquinha, só para mim. É verdade que íamos juntos ao monte à carqueja para acender o forno e ao aido buscar a bosta para o selar, sempre à conversa, um miúdo de sete anos com uma senhora de setenta. Esta avó acrescentou a sua mão sob a mão de Deus.
E foi por isso que a escola correu bem até eu achar que já sabia tudo e aí Deus pôs-se de lado, dizendo: caminha e vê.
E foi por isso que fiz a tropa mesmo mesmo depois do 25 de Abril.
E foi por isso que fui pai feliz e sou marido ainda.
E foi por isso que alguns anos mais tarde O reencontrei e assumi definitivamente como O MEU GUIA.
E foi por isso que a minha carreira profissional teve o encaminhamento que teve, por entre o risco e a sorte, com um saldo positivo no final.
E foi por isso que fui pai outra vez e continuo marido, num esforço permanente de reencontro com a mulher que escolhi na presença de Deus.
E foi por isso que já aqui cheguei, na esperança de ir mais longe.
Ao olhar pela janela do tempo consigo contemplar aqueles que como eu foram fadados e muitos outros que, ao contrário, não foram fadados. A mão de Deus pousou sobre todos nós, disso não há dúvida.
Mas não pergunto a Deus porquê. Pergunto antes aos homens, porque a mão de Deus não os impede de caminhar e de ver.
E é a alguns destes homens, muitos deles fadados, que cumpre assumir a responsabilidade de malfadar o seu semelhante como se isso não pudesse pesar no seu destino. É a eles que devem ser assacadas responsabilidades pelas revoluções e pelas guerras, pelas fomes e pelas luxúrias, pelo gráfico aberrante da estabilidade social ao longo da história, leões que se alimentam de carne congelada.
O retrato político da sociedade, portuguesa ou universal, enquadra-se sempre na mesma moldura de ouro e com os mesmos figurantes, seja republicano, monárquico, ditatorial ou democrático. É caso para dizer "SÃO SÃO SEMPRE OS MESMOS" desde tempos imemoriais, como se lhes fosse transmitido por direito divino e inquestionável.
E foi por isso que não pude ser e deixei que eles fossem: cínicos.
E foi por isso que me esforcei por não mentir para que só eles fossem: mentirosos.
E foi por isso que lutei muito contra a maldade para que só eles fossem: maus.
E foi por isso que me apelidaram de paladino para que eles fossem reconhecidos como: egoístas.
E é por isso que comummente se diz: ele há os fadados e há os... outros.
A sorte não é um bem nem uma lotaria, antes porém uma demanda sem termo nem sossego.
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